| Conexão
Aprendiz: estímulo ao desenvolvimento do jovem
18/05/04
Neste artigo inaugural da coluna de
minha autoria, na qualidade de Presidente da Cidade Escola Aprendiz,
importante trazer algumas considerações acerca da
Lei de Aprendizagem, promulgada em dezembro de 2000, com o fito
de estimular o ingresso de jovens entre 14 e 18 anos ao mercado
de trabalho. Pelo menos é este o objetivo da Lei Federal
de número 10.097 ao estabelecer às médias e
grandes empresas a obrigação de manter em seus quadros
de funcionários uma cota entre 5 e 15% de Aprendizes (para
as micro e pequenas empresas é facultativa a contratação).
Para os adolescentes é a oportunidade de verem subsidiada
aprendizagem de qualidade, trabalhando, percebendo remuneração
para tanto, além da contrapartida pelas organizações
sociais e empresas de propiciar a formação, acompanhamento,
avaliação do desempenho e certificação.
A lei, que altera a CLT, possibilita que a contratação
e a formação de adolescentes seja feita não
só pelos Serviços Nacionais de Aprendizagem (SENAI,
SENAT, SESC, SENAC e SESCOOP) como também por Escolas Técnicas
de Educação e por Organizações Sociais
Civis não-governamentais e sem fins lucrativos, instituições
formadoras com programas destinados a atividades pedagógicas,
educacionais, incubadoras focadas à empregabilidade e ao
empreendedorismo, registradas no Conselho Municipal de Defesa da
Criança e do Adolescente, como é o caso da Cidade
Escola Aprendiz.
Os aprendizes assinam contrato de trabalho
especial, por um período de no máximo dois anos; têm
vínculo empregatício e salário mínimo
por hora. As empresas arcam com encargos, no entanto com redução
do FGTS de 8,5 para 2,5%, exceto para os contribuintes pelo simples,
de 8 para 2%. O adolescente deve estar cursando ou ter concluído
o Ensino Fundamental e o contrato deverá ser de seis horas
diárias, desde que nelas estejam computadas as de aprendizagem
teórica.
Por ter entrado em vigor há quase
quatro anos, aludida lei não deveria ser novidade, mas sim
estar com sua eficácia plenamente experimentada. Todavia,
não é o que ainda se presencia, não obstante
a importância da lei superar a estréia no mercado de
trabalho, porquanto gera a possibilidade de formação
técnico-profissional, com atividades práticas e teóricas,
com o desenvolvimento físico, psíquico, moral e social
do adolescente, como estipula a lei, além do envolvimento
complementar com a melhoria da comunidade.
A organização, juntamente com
a empresa, deve incentivar o adolescente a concluir os estudos convencionais,
sem interferir na freqüência escolar, já que a
perda do ano letivo e as ausências injustificadas são
consideradas faltas graves que implicam demissão. Após
completar 16 anos, o adolescente pode ser efetivado, não
sendo possível trabalhar horas-extras, nem tampouco laborar
em locais insalubres.
Foi em 1943, com a promulgação
da Consolidação das Leis do Trabalho, a definição
quanto à idade mínima de 14 anos para o ingresso no
mercado de trabalho. Em 1998, o limite passou para 16 anos, mas
no caso dos aprendizes foi mantida a idade de 14 anos, com a possibilidade
de efetivação em cargo definido aos dezesseis. De
acordo com dados do Ministério do Trabalho, a lei, se aplicada,
poderia beneficiar entre 650 mil e três milhões de
jovens em todo o país. Como não está inerte,
mas sempre pensando nos jovens, a Cidade Escola Aprendiz, o CPA
“Pe. Bello” (Centro de Profissionalização
de Adolescentes) e o banco JPMorgan criaram o site denominado CONEXÃO
APRENDIZ, para mostrar a importância da lei e como ela pode
ser aplicada no dia-a-dia das empresas.
Por outro lado, deve-se ter em mente que
o olhar para o jovem tem que ser redobrado, pois há pouco
mais de um ano o Novo Código civil reduziu de 21 para 18
anos a maioridade e com isto a plena capacidade e assunção
de total responsabilidade pela prática dos atos de gestão
da vida civil, como por exemplo poder contrair matrimônio
e união estável, firmar contratos de qualquer espécie,
constituir pessoas jurídicas, enfim, agora nossos jovens
ficaram ainda mais premidos pela necessidade de acontecerem mais
rápido.
Para tanto, devem estar empoderados e com
condições de se incluírem socialmente, inclusive
devendo ser criadas novas oportunidades de aprendizado e geração
de renda de formas diferenciadas, com o despertar de novas profissões
e resgate daquelas em desuso.
Os diversos programas em andamento a todo
o vapor na Cidade Escola Aprendiz, em parceria com o Poder Público,
empresas, escolas e demais integrantes da sociedade privilegiam
a descoberta do conhecimento pelo jovem, despontando e valorizando
seus talentos.
Exemplos vivos dessa experiência são
a Incubadora Aprendiz (jovens desenvolvem projetos voltados para
constituição de seus próprios negócios,
empreendendo na prestação de serviços ou produtos),
a Cursinho Pré-Vestibular para jovens de baixa renda (o percentual
de ingresso nas universidades é um sucesso), o Aprendiz Comgás
(grupos de jovens desenvolvem projetos visando à melhoria
da comunidade), Projetos com intervenções urbanas
por meio da arte-educação (é uma grande conquista
vermos os grafiteiros respeitados como artistas de rua e profissionais,
sendo que antes eram marginalizados e não havia distinção
entre atos de vandalismo pela própria polícia, que
ao vê-los em ação já chegavam com "porretadas",
sem respeito à grandeza e beleza do trabalho enriquecido
com estudos e conteúdo técnico. Afinal, os grafites
de hoje não são rabiscos quaisquer, mas sim pinturas
magníficas que fazem do espaço público verdadeiras
galerias de arte a céu aberto), Projetos com inclusão
digital e relações intergeracionais (jovens constróem
seus próprios sites ou diários virtuais, contam suas
Histórias de Vida e depois ensinam os idosos a fazerem o
mesmo - Oldnet) Vale a pena ver a descrição dos diversos
programas desenvolvidos pela Cidade Escola Aprendiz neste site.
Como bem se vê, confiar na capacidade
dos jovens é sem dúvida alguma um tiro certeiro para
todos, bastando lembrar que este site foi criado há alguns
anos pelos próprios aprendizes, quando pouco se falava em
comunicação eletrônica, com a transcrição
da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Naquela
época este site era um sonho, hoje conta com um dos melhores
conteúdos educacionais do país e com média
de 7.500 visitantes únicos por dia.
Na verdade, é engrandecedor acreditar
e investir na formação de jovens como solução
para um futuro melhor, motivo pelo qual, com muita honra, nesta
coluna inaugural, tenho a ousadia de lançar um repto: empresários,
tornem eficaz a Lei de Aprendizagem.
Miguel Pereira Neto é Presidente
da Cidade Escola Aprendiz. Advogado processualista, mestre pela
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, defensor
dos Direitos Humanos, da Criança e do Adolescente.
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