|
27% dos jovens não trabalham
nem estudam
20/02/06
Leandro Magalhães, 15, encontrou só portas fechadas
ao concluir o ensino fundamental. De um lado, tentou prosseguir
nos estudos. "Não sei direito o que aconteceu, mas a
diretora disse que não tinha mais vaga."De outro, arriscou-se
no mercado de trabalho. "Mas dizem que sou muito novo e sem
experiência."
Sem estudar ou trabalhar, seu dia é preenchido pelo skate.
Acorda por volta de meio-dia e vai para o parque da Juventude, construído
no mesmo terreno em que funcionava o presídio do Carandiru,
na zona norte de São Paulo.
Ali, fica até às 21h, só andando de skate
e conversando com amigos, muitos dos quais na mesma situação
que a dele. Leandro não é exceção. Como
ele, aproximadamente um quarto dos jovens das oito principais regiões
metropolitanas não trabalha nem estuda. De acordo com uma
pesquisa realizada pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas) e pelo instituto Pólis, feita
com 8.000 jovens, 27% dos brasileiros de 15 a 24 anos nessas regiões
do país estão sem atividades profissionais ou educacionais.
Um quadro muito parecido é revelado pela PME (Pesquisa Mensal
de Emprego) do IBGE. Feita em seis regiões metropolitanas,
ela indica que em dezembro do ano passado 23% da população
(ou 1,7 milhão de jovens) entre 16 e 24 anos não estudava
nem trabalhava. Desses 1,7 milhão, 1,1 milhão (ou
67%) nem sequer procurou emprego no mês de referência
da pesquisa.
"Muitas vezes, por causa da dificuldade de encontrar uma vaga,
eles desanimam e param de procurar até que a situação
melhore. Muitos podem estar estudando em casa ou fazendo cursos
esporádicos", diz o gerente da PME, Cimar Azeredo Pereira.
Enquanto não estudam nem trabalham, muitos são pressionados.
Leandro, por exemplo, conta que ouve diariamente as queixas do pai
de que precisa de ajuda para manter a casa. "Todo mundo fala
que a gente é vagabundo. Não sei se somos."
Para Eliane Ribeiro, professora da Faculdade de Educação
da Uerj e uma das coordenadoras da pesquisa do Ibase, não
se pode dizer que todos os jovens sem emprego e trabalho sejam ociosos:
"Pode parecer que ficam todos parados na esquina, sem fazer
nada. Muitos estão procurando emprego ou vinculados a projetos
sociais. Eles não estão nessa situação
porque querem. Alguns saíram da escola porque repetiram várias
vezes. Outros tentam entrar numa universidade ou conseguir um emprego,
mas neste país isso não é tão simples".
Após fazer a pesquisa com 8.000 jovens, o Ibase coordenou
também grupos de discussão com 900 adolescentes. Patrícia
Lânes, pesquisadora do instituto, conta que uma queixa comum
foi à restrição do mercado de trabalho.
"Eles dizem que, sem experiência, não conseguem
se inserir no mercado de trabalho. No entanto, sem a inserção,
também nunca terão essa experiência. Muitos
reclamaram ainda de preconceito por causa de sua aparência.
Dizem que não conseguiram um emprego por causa da cor da
pele ou porque não usam a roupa ou o cabelo da moda",
afirma Lânes.
A socióloga Helena Abramo, organizadora do livro "Retrato
da Juventude Brasileira", concorda: "O trabalho se tornou
um bem tão escasso que gera uma angústia nesses jovens.
As pesquisas feitas com eles mostram uma preocupação
grande de "sobrarem" no mercado de trabalho".
Mas a preocupação não é só com
o mercado. "É preciso avaliar por que esses jovens não
estão na escola. É porque não há oferta?
Faltam vagas noturnas? É preciso uma escola que faça
sentido para esses jovens e que os ajude a entrar no mercado",
afirma ela.
(Folha de S. Paulo)
Leia mais:
-
Desafio não é só conseguir emprego
|