Pioneiras na formação de aprendizes tomam rumos diferentes

Por Talita Mochiute
27/02/09
Em
2003, o Centro
de Integração Empresa-Escola (CIEE) formou 87
aprendizes. No ano passado, esse número atingiu 12 mil jovens.
A Associação
de Ensino Social Profissionalizante (Espro) também registrou
um forte crescimento; no início eram 30 aprendizes, hoje
são 7 mil.
Enquanto isso, instituições como o Centro
de Aprendizagem e Monitoramento Profissional Dr. Joaquim Lourenço (Camp Pinheiros) e o Centro
de Profissionalização de Adolescentes (CPA “Pe.
Bello”) também cresceram, mas em proporções
menores. O Camp Pinheiros passou de 300 para 600 jovens, e o CPA
foi de 15 para 35.
As duas diferentes realidades representam as trajetórias
das instituições paulistas pioneiras na formação
de aprendizes. Por meio de grandes estruturas e ampla rede de parcerias,
CIEE e Espro, por exemplo, expandiram fortemente o número
de jovens formados, passando a atuar em âmbito nacional. Por
outro lado, com estruturas reduzidas e dificuldade de captação
de parceiros, entidades como o Camp Pinheiros e o CPA também
cresceram, porém de maneira mais tímida, com alcance
restrito à cidade de São Paulo.
Pela Lei
de Aprendizagem (nº 10.097), de 2000, empresas de médio
e grande porte devem ter entre 5% a 15% do seu quadro de funcionários
formado por aprendizes. Para ser contratado como aprendiz é
preciso ter entre 14 e 24 anos e estar matriculado na escola ou
já ter concluído o Ensino Médio. Também
é necessário cursar um programa de educação
profissional oferecido pelo Sistema S, por escolas técnicas
ou entidades sem fins lucrativos.
Diferentes perfis
A Espro e o CIEE foram as primeiras instituições
da cidade de São Paulo habilitadas pelo Conselho
Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) a formar
aprendizes em 2003. Já o Camp Pinheiros e o CPA receberam
o registro do CMDCA em março de 2005.
“Temos filiais em 566 cidades e parcerias com outras organizações.
Selecionamos e capacitamos 60 ONGs. A área de relações
institucionais é responsável pela busca de novas parcerias”,
afirma a gerente geral da Espro, Eliandra Cardoso.
Já o CIEE firmou em 2007 uma parceria com a Fundação
Roberto Marinho (FRM) que originou o Programa Aprendiz Legal. “Essa parceria agregou valor
ao programa. Uniu a expertise pedagógica da FRM à
capilaridade nacional do CIEE, permitindo que jovens e empresas
de todo o país se beneficiassem”, comenta o gerente
do programa, Everton Mendes.
Nesta parceria, a FRM oferece o suporte pedagógico e o CIEE
cuida do recrutamento, seleção e capacitação
teórica dos aprendizes. Os 12 mil jovens da entidade estão
distribuídos em quase todos os estados brasileiros e trabalham
em uma das 3 mil empresas parceiras do CIEE.
CPA e Camp Pinheiros também fecharam novas parcerias durante
o desenvolvimento do programa de aprendizagem, mas em menor escala.
O CPA começou com duas empresas, atualmente está com
dez. Já o Camp Pinheiros passou de 143 para 160.
“É muito difícil. A lei ainda não é
tão divulgada quanto deveria. Além disso, nossa equipe,
composta por quatro pessoas, é responsável pela captação
de parceiros, pela capacitação dos jovens e pelo acompanhamento
do aprendizado dos jovens que já estão nas empresas”,
conta a coordenadora do programa de aprendizagem do CPA, Kelly Alves
do Carmo.
Poucos parceiros
Outras duas instituições que receberam seus registros
em 2005 vivem situações semelhantes - com pequena
expansão, ou até redução do número
de vagas - mas com um detalhe: tem um número reduzido de
parceiros desde o registro no CMDCA.
Desde o início, o Centro
de Assistência e Promoção Social Nosso Lar (Cenlep) e o Centro
Social Nossa Senhora do Bom Parto têm como principal parceiro
o Banco do Brasil. A primeira conta com outras seis empresas de
pequeno porte e a segunda continua somente com o banco.
Diante dessa situação, o Cenlep, que em 2002, mesmo
sem registro no CMDCA, formou 150 aprendizes, sete anos depois atende
98 jovens. O Bom Parto passou de 20 para 40 jovens formados atualmente.
A coordenadora geral do Cenlep, Rosana Ferraioulo, também
aponta a captação de empresas como uma das principais
dificuldades para a ampliação das vagas. “Você
precisa de um funcionário voltado para isso. Eu não
tenho financiamento para bancar um profissional só para captação”,
explica.
Para a orientadora de programas para jovens do Bom Parto, Luciana
Cury Rea, outro desafio na hora do estabelecimento de uma nova parceria
é convencer as empresas de grande porte, já contribuintes
do Sistema S, a aceitarem a proposta de outras entidades formadoras.
“Se a empresa já tem parceria com Senai, dificilmente
fechará parceria com outra instituição”,
explica.
Desafios
Independente da situação, as instituições
formadoras de aprendizes concordam que o grande desafio ainda é
a disseminação da lei. “É preciso conscientizar
um número cada vez maior de organizações para
abrir oportunidades para a juventude, divulgando os benefícios
da aprendizagem”, afirma Mendes, do CIEE.
De acordo com Luciana, do Bom Parto, as empresas e as entidades
têm muitas dúvidas sobre o funcionamento da lei. “As
empresas só procuram a entidade formadora, quando são
autuadas pelo Ministério do Trabalho”, complementa
Rosana, do Cenlep.
Outra preocupação das organizações
é quanto ao entendimento das empresas sobre aspecto educacional
do programa. “O jovem precisa entender a importância
da aprendizagem teórica na instituição. As
empresas, por sua vez, compreenderem que aquele jovem não
é um funcionário comum, é um aprendiz”,
comenta Rosana.
Para que as empresas se comprometam com o desenvolvimento dos jovens,
as instituições costumam realizar palestras para orientar
os empregadores. Os aprendizes também são acompanhados
pelas instituições durante o programa.
Uma das dificuldades das instituições com o fim do
período de aprendizagem é mapear a quantidade de jovens
efetivados pelas empresas ou que conseguiram outra colocação
no mercado de trabalho.
“Pretendemos neste ano começar fazer um acompanhamento
mais sistemático, mas podemos dizer que cerca de 70% conseguem
se inserir formalmente no mercado”, diz Kelly do CPA. A Espro
também deseja criar um departamento para levantar esses dados.
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